sábado, 12 de agosto de 2017

TRAJETÓRIA, DOCÊNCIA E MEMÓRIAS.

Primeira Professora: Vera Lúcia Fernandes da Silva, conhecida na comunidade do Pacheco como Vera de jorge.

                  No banco de areia começa sua trajetória e nos bancos da escola Dona Vera Lúcia Fernandes da Silva, natural de Ceará Mirim, deixa para nós um grande legado e é homenageada pelo amor incondicional a educação, pioneira na formação de pessoas da comunidade,  suas marcas de resistência são visíveis. Relata-se que, mesmo enfrentando dias muito difíceis de saúde e demais problemas, procurou lecionar com dedicação e responsabilidade. Procurou ser exemplo. Sua residência, uma casa simples, de taipa, era ambiente que acolhia as crianças dos diversos logradouros vizinhos, tinha alunos de melancias a mutambinha, era aluno que fazia gosto, como ela mesma nos conta enchendo os olhos de lágrimas. Naquela época, existiam poucas casas, todos se conheciam e se tratavam como sendo da família, os alunos eram diferentes dos de hoje, obedeciam aos pais, obedeciam aos professores, usava sua palmatória para realizar tarefas de matemática e leitura, soletrar acabava sendo um jogo divertido, cada aluno com um livro na mão tentava ler a palavra sugerida, se errasse levava bolo na mão, ensinou a todos os filhos de Chico Horácio,  ensinou a muitos que ali residem. Muitos....Órfã de mãe aos (9) nove anos de idade, ia completar em 30 de janeiro de 1958 e a mãe faleceu em 25 de janeiro do mesmo ano....faleceu de parto e seu pai em seguida casou-se novamente.
                 Logo que chegaram aqui, vindos de Ceará Mirim, moraram nas terras de Edgar Montenegro, a família do seu pai era natural de Carnaubais, mas a da mãe era de Serra de Araruna. Fez o logos, naquele tempo era o passe para ser professora, Era louca para estudar no Educandário Nossa Senhora das Vitórias em Assu, era o sonho das meninas estudiosas, relata que: se tivesse morado com seu pai a vida tinha sido outra, sofreu muito....emociona-se ao contar... Teve a sorte de encontrar no caminho da vida, pessoas boas como Dona Zulmira Bezerra de Siqueira e Francisquinha Macedo, gente bondosa e influente, que incentivaram na sua caminhada. A escola funcionou em várias casas de taipa, uma delas foi à casa de Chico de Gino, algumas foram erguidas de alvenaria, outras nem vestígios existem mais. Dona Vera ensinava em casa e recebia pela prefeitura mensamente até ver erguido o pequeno prédio da escola, Pe. José de Anchieta, na gestão de Giovanny Wanderley, iniciou com uma sala de aula, graças à luta de um grupo de jovens chamado “Jucrist” que se reuniam na casa do Sr. João Galdino, casa de taipa grande que dava para acomodar todos para as reuniões, lá discutiam sobre a necessidade de uma escola nessa comunidade, entre outras precisões... o professor Carlos Augusto foi pioneiro desse grupo, juntamente com o Professor Damasceno Neto, defensor da educação e de um novo prédio, essas reuniões surtiram efeito e através de muita pressão a escola foi organizada. Dona Vera com sua saúde fragilizada já não pode mais lecionar, sua filha chamada Maria da Conceição ficou ocupando seu lugar e ela por algum tempo ficou dando contribuição em outros setores da escola. Fez de tudo um pouco.
                   Até a legitimação do início do atual prédio, se evidencia, pelos seus relatos e pela forma carinhosa que relembra suas práticas, Dona Vera, não se recusava a colaborar nos demais setores da educação, se não podia estar em sala de aula por problemas diversos de saúde, especialmente alergias ao pó de giz. Estava ela em outro lugar da escola... Reforça que sua vida foi de muitas batalhas, mas venceu todas, casou e teve 13(treze) filhos. 10 homens e 03 mulheres, comtemplada hoje com 21 netos.
                   Com 28 anos de serviço, recebeu sua aposentadoria, lembra de forma  saudosa que ao receber a notícia veio junto um bilhete de Francisquinha Macedo, dizendo: “lamento que sua pasta agora vai para o arquivo morto”. Assim, Dona Vera conclui sua rotina de trabalho na educação. Relembra pessoas que também contribuíram com Pe. José de Anchieta como: Zulmira de Luiz Mendonça, Gracinha de Lelego, Ozineide, Lucília, Damasceno, entre tantos outros que serão citados e lisonjeados em outro momento.  

Josélia Coringa
(Fragmentos -Texto em andamento)

Secretário de Educação faz homenagem a primeira professora da comunidade.


sábado, 5 de agosto de 2017

RESGATANDO SUAS MEMÓRIAS.

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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

LEMBRANÇAS E MAIS LEMBRANÇAS

Entrelaçando histórias

Hoje me bateu uma saudade, uma saudade danada daquele tempo de criança lá em Olho D´água, minha mãe, minha infância, minhas melhores lembranças...rígida e determinada, se algum de nós saísse da linha pegue péia, a palmatória era certeira. Meu irmão mais velho, sempre renitente, neto protegido e querido da minha vó paterna, vovó Tereza, menino sapeca, não gostava de estudar ou não gostava da professora D. Mirinha, viva D.Mirinha, que também foi minha....minha mãe o mandava p escola e ele voltava, era umas manhãs de vai e vem...a baixa de Sr Zé Ligança servia de sobe e desce para ele...ela dizia: você vai, e ele em silêncio retrucava, eu volto. Apanhava para crescer e acabava indo. Assim aprendeu a ler, na marra e nas diretrizes de D. Mirinha, que para completar minha mãe ainda reforçava, não dê moleza, aperte ele. Tínhamos receio da cruel matemática que nos obrigava a decorar a tabuada. Ai dos que titubeavam no momento do mantra entoado com respostas e perguntas da divisão. D. Mirinha, exemplo de professora alfabetizadora, inspira pessoas até hoje. Não conseguiu ainda deixar o ofício.  Dona Ildete, saudosa D. Ildete. é possível ouvir o som daquela voz firme perguntando: - três vezes três? E o coro em seguida respondendo: - nove. Num espaço improvisado na casa de Zé Cobra, levávamos o tamborete, porque não havia cadeiras suficientes, minha mãe comprou um exclusivamente para mim....Um belo dia meu Primo Mesinho, teimoso e cheio de dengo, tomou meu tamborete e rolou uma briga feia, ele me bateu, eu era mole... Depois fomos para 2ª série, já na prensa de Sr Francisquinho Tavares, que doou um espaço, chamado Prensa se Sr. Fransquim, para que D. Ildete pudesse ensinar.... E assim, sucessivamente até os nove, dez...Depois fui para o Entroncamento estudar com Dalvaci Antunes, no Princesa Isabel, no caminho para casa sempre tinha umas briguinhas entre eu, Cirlene e Lígia e Pitiquinho era quem amenizava... se as três se juntassem pode ter certeza, dava chafurdo...depois fui estudar com Venâncio no Colégio Camilo de Lelis Bezerra, no Alemão, lá era preciso chegar cedo porque não tinha carteira suficiente, o aluno mais travesso era Francisco Pelonha, o mais bonito também...ele tirava Venâncio de tempo, era suspenso e voltava mais danado...as vezes me obrigava a escrever as matérias dele...as vezes eu não achava ruim porque eu achava ele tão lindo...sabe aquele menino que encanta de tanta beleza...mas era horrível de comportamento. Venâncio também usava palmatória...
Que suador enorme nos causava a exposição daquela palmatória trabalhada artesanalmente, com superfície lisa, de extremos arredondados sobre a mesa da professora. D. Ildete. Quanta saudade daqueles tempos na escola! 
Dona Mirinha, Senhora Franzina, altiva, autoritária, sua forma de ensinar marcou toda uma geração. Minha mãe parecia sua discípula. Nossa! Em casa não era mole. Minha mãe era zelosa, e entre tantos desejos que havia em seu coração um deles era nos vê crescer, serem pessoas de bem, dizia que após isso Deus podia decidir sobre ela.  Criou-nos com muito capricho, em meio à pobreza éramos crianças admiráveis. Cabelos de anum, olhos de biloca....Pacatos e tímidos. Erámos tão tímidos que ao chegar gente na nossa casa à gente se escondia..se escondia mesmo, sem exageros. O caçula, esse, entrava de mato a dentro e só chegava quando se sentia seguro, tinha medo de gente! Rs.. Eu nem tanto assim... mas até hoje ainda sou chamada por um primo de menina maluquinha, a Maria maga, era tão maguinha que quase quebrava ao meio.

Mais eu estava mesmo era falando de educação...tempo de seriedade...Aqueles “algozes” do passado formaram-se, seguiram carreiras diversas, acima de tudo, tornaram-se gente com valores morais admiráveis. Graças a educação rigorosa e regrada da época. 

Havia regras naquele passado: nada de ir com unhas sujas, com uniforme sujo; meninos de meias e com calçado no pé, meninas com saias de pregas até dois dedos acima do joelho. Na década de 70 ainda se usava..! mas eu não alcancei essa época toda...Minha geração fervorosa foi a da final da década de 80 e 90. Geração Cazuza.  Oh! Como era bom!!! Namoro na escola? Nem pensar. Logo os pais ficavam sabendo. Só se fosse muito escondido...
Bendita imagem a daqueles estudantes diferenciados.  Sabia-se pelo jeito de quem era filho(a). Todo mundo se conhecia...qualquer ocorrido: vou dizer a sua mãe. A figura materna era respeitada. O pai nem se fala...Na verdade as mães sempre foram mais presentes...
Os funcionários eram poucos, alguns eram professoras, zeladoras e merendeiras ao mesmo tempo. Família, escola e sociedade caminhavam juntas pela formação das crianças. Havia, de fato, a preocupação com o futuro. Não era um clichê. Na época áurea da palmatória, os professores eram chamados de mestres, inspiravam e incentivavam. Oh! Saudoso Chico Maricas...era um professor amigo da minha mãe, saudosa Luzimar Coringa, professora dedicada...minha mãe era sociável, adorava conversar, tinha espirito de liderança na comunidade Olho Dágua, se descava pelo jeito dócil de ser, acolhedora, humana e irreverente, nos idos de 80, ela se mostrou uma mulher  a frente do sua geração... lembro-me como se fosse hoje, minha mãe estilosa, se descava também pelos belos cabelos pretos, feito índia...não os cortava com todo mundo, era vaidosa, minha mãe, sabia o que fazia... Furou a orelha em vários cantos, colocou brinquinhos e parecia uma adolescente revolucionária. E era mesmo, assim era seu espírito, de luta, de liberdade....Os anos 80 entraram para a história pela miscelânea de movimentos e a busca pela liberdade de expressão artística e social. O sucesso da música dessa época é tanto que boa parte das letras está na ponta da língua até hoje. Adoro Cazuza. Viva Cazuza! As suas canções atravessam gerações e tocam em temas atemporais como a política. Assim, bandas como Legião Urbana, Titãs, Barão Vermelho, Capital Inicial e Os Paralamas do Sucesso surgiam no cenário e revelavam compositores do nível de Cazuza, Renato Russo e Arnaldo Antunes. Só feras. Tempo bom demais... No meio dessa década  já estava na escola Adalgiza....(muito o que relatar)
Naquela época tinham plena liberdade de expressão. Podiam falar em sala o que hoje não podem mais, sob pena de incorrerem em discriminação, preconceito e outras tantas imbecilidades criadas pela ditadura do tal “politicamente correto”. 

Inspirados por esses homens e mulheres, alunos de ontem, assim como eu, meus irmãos, os filhos de Zé Correia, de Darita, de Maria de Osmar, de Terezinha de Zé Carias, de Dona Punina e Sr Faustino, nossa vizinhança era toda essa....geração que seguiram os mesmos passos sofrem agora da dolorosa desilusão. De cada uma dessas famílias saíram professores, Rosileide Xavier, Cirlene Guerra, João Correia, Neide, Maria Luiza, Aqueles mestres respeitados até pela condição econômica, nos inspirou e hoje somos servidores públicos. Vivemos entre duas escolhas: lecionar porque amamos ou sobreviver com a dignidade econômica de que precisamos.


Não bastasse o salário e um ambiente de trabalho por vezes insalubre, ainda lidamos com uma sociedade contemporânea repleta de sérios problemas de desordem moral. Nossas meninas estão vulgares e violentas; nossos meninos tão perdidos quanto elas. As leis de “estado-gagá” implantadas no Brasil reforçam a omissão de pais e o silêncios dos educadores. Tudo agora é assédio, preconceito e discriminação. 


Chegamos ao ridículo de considerarmos a competitividade tão nociva que a média escolar foi reduzida e as provas quase extintas para garantir a um “governo democrático” o discurso de que não há mais reprovação nas escolas. 


Os seres humanos fazem parte de um contexto social, onde realizam diversos tipos de ações que estão interligadas entre si, e que trazem resultados tanto para o sujeito que as exerce, quanto para toda a comunidade em que este sujeito vive. Por isso, suas ações devem ter uma busca intencionada, com objetivos determinados, definidos por sua própria natureza, para que esses indivíduos possam desenvolver habilidades que tenham equilíbrio entre a razão e os desejos, e claro, que tenha em vista um reto fim.  Eis a filosofia macintyreana indo para o ralo - pelo menos nas bandas da nossa Pátria Mãe Gentil cujo futuro é repleto de analfabetos funcionais. De corruptos que envergonham...
Por isso, MacIntyre propõe uma educação baseada nas virtudes. A virtude é uma qualidade humana adquirida, cuja posse e exercício costuma nos capacitar a alcançar aqueles bens internos às práticas e cuja ausência nos impede, para todos os efeitos, de alcançar tais bens.(MacINTYRE, 2001, p.321)

Josélia Coringa 03/08/2017

...Mais agora vou parar por aqui... e amanhã quem sabe retomo a esse texto contanto mais proezas daquele tempo.