sexta-feira, 12 de junho de 2020

Felicidade Realista, viva-a!!!


"FELICIDADE REALISTA"
( Martha Medeiros )

A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote
louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.
Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis.
Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito.
É o que dá ver tanta televisão.
Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.
Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo,
usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o
suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.
Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se.
Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Mas olhe para...



Mas olhe para todos ao seu redor e veja o q temos feito de nós e a isso considerado vitória de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficando do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no q realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso...


terça-feira, 9 de junho de 2020

Um festival de incerteza. Artigo de Edgar Morin

"A experiência das irrupções do inesperado na história penetrou com dificuldade nas consciências. A chegada do imprevisto era previsível, mas não sua natureza", escreve o filósofo francês Edgar Morin, em artigo publicado pela editora Gallimard, como parte da série Tracts de crise (Fôlders de Crise),  21-04-2020. A tradução é de Edgard Carvalho e Fagner França.

Eis o artigo.

Todas as futurologias do século XX que previam o futuro com base nas correntes que atravessavam o presente fracassaram. Contudo, continuamos a prever 2025 e 2050 mesmo que sejamos incapazes de compreender 2020. A experiência das irrupções do inesperado na história não penetrou nas consciências. A chegada do imprevisivel era previsível, mas não sua natureza. Daí minha máxima permanente: “espere pelo inesperado”.
Faço parte dessa minoria que previa catástrofes em cadeia provocadas pelo desdobramento incontrolável da mundialização tecno-econômica, incluindo aquelas que resultam da degradação da biosfera e das sociedades. De forma alguma, porém, previ uma catástrofe viral. Mas ela teve seu profeta: em uma conferência de abril de 2012, Bill Gates anunciou que o perigo imediato para a humanidade não era nuclear, mas sim sanitário. Durante a epidemia de Ebola, que por sorte pôde ser rapidamente controlada, ele viu o prenúncio do perigo mundial de um possível vírus com forte poder de contaminação. Falou sobre as medidas de prevenção necessárias, dentre elas equipamento hospitalar adequado. Mas, a despeito desta advertência pública, nada foi feito nos EUA nem em lugar algum. Isso porque o conforto intelectual e o hábito odeiam mensagens incômodas.
Em muitos países, na França inclusive, a intensa estratégia econômica dos fluxos, ao substituir a da estocagem, deixou nosso dispositivo sanitário desprovido de máscaras, instrumentos de teste e aparelhos respiratórios. Acresça-se a isso a doutrina liberalizante e comercial com relação à saúde, que reduz verbas e contribui para o avanço catastrófico da epidemia.

O desafio da complexidade

A presente epidemia produz um festival de incertezas. Não estamos seguros da origem do vírus: se foi o mercado insalubre de Wuhan ou o laboratório vizinho. Não sabemos ainda as mutações que o vírus sofreu e poderá sofrer durante o curso de sua propagação. Não sabemos quando a epidemia refluirá ou se o vírus permanecerá endêmico. Não sabemos até quando, nem até que ponto, o confinamento nos submeterá a proibições, restrições, racionamentos. Não sabemos quais as consequências políticas, econômicas, nacionais e planetárias das restrições causadas pelos confinamentos. Não sabemos se devemos esperar o pior, o melhor, ou uma mistura dos dois: caminhamos na direção a novas incertezas. Os conhecimentos multiplicam-se exponencialmente de tal forma que ultrapassam a capacidade de nos apropriarmos deles; lançam, sobretudo, um desafio para a complexidade: como confrontar, selecionar, organizar os conhecimentos de forma adequada, ao mesmo tempo religando-os e integrando as incertezas. Para mim, isso revela mais uma vez a insuficiência do modo de conhecimento que nos foi inculcado, que nos faz separar o que é inseparável e reduzir a um único elemento aquilo que é ao mesmo tempo uno e diverso. De fato, a importante revelação dos impactos que sofremos é que tudo aquilo que parecia separado está conectado, porque uma catástrofe sanitária envolve integralmente a totalidade de tudo o que é humano.
É trágico que o pensamento disjuntor e redutor reine soberano em nossa civilização e detenha o comando tanto na política e na economia. Essa desastrosa insuficiência nos conduziu a erros de diagnóstico, de prevenção, assim como a decisões aberrantes. Acrescento que essa obsessão dominante pela rentabilidade entre nossos governantes e que conduz nossa economia é responsável, repito, pelo abandono dos hospitais bem como da produção máscaras na França. Do meu ponto de vista, as carências no nosso modo de pensar, aliadas à dominação incontestável de uma sede desenfreada de lucro, são responsáveis por inúmeros desastres humanos incluindo aqueles que vêm ocorrendo desde fevereiro de 2020.

Potência e impotência da ciência

É mais que legítimo que a ciência seja convocada pelo poder para lutar contra a epidemia. A princípio tranquilizados, sobretudo por causa do uso da cloroquina defendido pelo professor Didier Raoult, os cidadãos se defrontaram depois com opiniões diferentes e até mesmo contrárias. Os cidadãos mais informados descobriram que alguns renomados cientistas mantêm estreitas relações com a indústria farmacêutica, que possuem lobistas poderosos junto aos ministérios e meios de comunicação, capazes de inspirar campanhas para ridicularizar ideias inconvenientes. Lembremos do professor Luc Montagnier que, contra pontífices e mandarins da ciência foi, juntamente com alguns outros colegas, o descobridor do HIV, o vírus da aids.
Esta é a ocasião para compreender que a ciência, diferente da religião, não tem um repertório de verdades absolutas e que suas teorias são biodegradáveis sob efeito de novas descobertas. As teorias aceitas tendem a se tornar dogmáticas nas cúpulas acadêmicas, e são os desviantes, de Pasteur a Einstein, passando por Darwin e Crick e Watson, os descobridores da dupla hélice de DNA, que fazem com que as ciências progridam. É por isso que as controvérsias, longe de serem uma anomalia, são necessárias a tal progresso.
Mais uma vez, frente ao desconhecido, tudo progride por tentativa e erro, assim como por inovações desviantes, a princípio incompreendidas e rejeitadas. Esta é a aventura terapêutica contra o vírus. Os remédios podem aparecer aonde ninguém esperava. Em decorrência disso, seria necessário um verdadeiro debate sobre o antagonismo entre prudência e urgência, ao invés da velha dicotomia daqueles que se prendem a apenas uma das partes: a prudência corre o risco de aumentar o número de vítimas por falta de testes confiáveis; a urgência, por sua vez, pode subestimar os efeitos secundários de um tratamento que tem obtido bons resultados imediatos. Qualquer que seja a decisão, trata-se de um desafio na qual cada escolha comporta um perigo de perdas de vidas humanas.
Mais uma vez as incertezas. Lembremos que a ciência é devastada pela hiperespecialização, que implica o fechamento e a compartimentalização de saberes especializados, ao invés de promover sua comunicação. E são sobretudo os pesquisadores independentes que estabeleceram desde o início da epidemia uma cooperação que agora se amplia entre infectologistas e médicos de todo o planeta. A ciência vive de comunicações, qualquer tipo de censura a bloqueia. Devemos, portanto, conceber as potências e impotências da ciência contemporânea.

Incertezas e dinâmicas da crise

Em meu ensaio Sobre a crise, tentei mostrar que uma crise, para além da desestabilização e da incerteza que acarreta, se manifesta pela insuficiência das regulações de um sistema que, para manter sua estabilidade, inibe ou repele os desvios (feedback negativo). Deixando de ser repelidos, os desvios (feedback positivo) transformam-se em tendências ativas que, se desenvolvidas, ameaçam cada vez mais desregular e bloquear o sistema em crise. Nos sistemas vivos, sobretudo os sociais, o desenvolvimento vitorioso dos desvios convertidos em tendências conduz às transformações, regressivas ou progressivas, ou mesmo a uma revolução.
A crise em uma sociedade suscita dois processos contraditórios. O primeiro estimula a imaginação e a criatividade em busca de soluções novas. O segundo se concentra no retorno a uma estabilidade passada, seja a adesão a uma salvação providencial, ou a denúncia ou imolação de um culpado. O culpado pode ter cometido erros que levaram à crise, ou pode ser um culpado imaginário, bode expiatório que precisa ser eliminado. Manifesta-se, efetivamente, um fervilhar de ideias em busca de uma nova Via ou de uma sociedade melhor.
As ideias desviantes e marginalizadas se propagam desordenadamente: retorno à soberania, Estado-providência, defesa dos serviços públicos contra as privatizações, realocações, desmundialização, anti-neoliberalismo, necessidade de uma nova política. Pessoas e ideologias são designadas como culpadas.
Na carência dos poderes públicos, identifica-se também uma profusão de imaginações solidárias: produção alternativa para a falta de máscaras por empresas reconvertidas ou por confecções artesanais, reagrupamento de produções locais, entregas gratuitas em domicílio, ajuda mútua entre vizinhos, alimentação gratuita aos sem-teto, cuidado das crianças.
Além disso, o confinamento estimula as capacidades auto-organizadoras para remediar, por meio de leituras, música se filmes, a perda da liberdade de deslocamento. Desse modo, autonomia e inventividade são estimuladas pela crise.

Um mundo incerto e trágico


Espero que a excepcional e mortífera epidemia que vivenciamos nos dê a consciência não apenas de que somos não apenas parte integrante da inacreditável aventura da Humanidade, mas também que vivemos em um mundo ao mesmo tempo incerto e trágico. A convicção de que a livre concorrência e o crescimento econômico são panaceias sociais escamoteia a tragédia da história humana agravada por essa convicção. A loucura eufórica do transhumanismo leva ao paroxismo o mito da necessidade histórica do progresso e do controle humano não somente na natureza, mas também de seu destino, prevendo que o homem acederá à imortalidade e controlará tudo pela inteligência artificial. Somos jogadores/joguetes, possuidores/possuídos, poderosos/fracos. Mesmo que possamos retardar a morte por envelhecimento, jamais poderemos eliminar os acidentes mortais nos quais nossos corpos serão esmagados, não poderemos jamais nos livrar das bactérias e dos vírus que sem cessar se transformam para resistir aos medicamentos, antibióticos, antivirais e vacinas.

Da pandemia à megracrise generalizada

epidemia mundial do vírus desencadeou e agravou terrivelmente uma crise sanitária e, no caso da França, provocou confinamentos que asfixiaram a economiatransformaram um modo de vida voltado para o exterior, numa introversão voltada para o lar, colocando a mundialização numa crise sem precedentes. A mundialização criou uma interdependência, mas sem que tal interdependência fosse acompanhada de solidariedade. Pior que isso, ela suscitou, em reação, confinamentos étnicos, nacionais, religiosos que se agravaram nas primeiras décadas deste século. Diante da falta de instituições internacionais e mesmo europeias capazes de reagir com uma ação solidária, os Estados nacionais se fecharam em si mesmos.
República Tcheca até mesmo confiscou o envio de máscaras destinadas à Itália, e aos EUA, desviaram em benefício próprio um estoque de mascaras chinesas inicialmente destinadas à França.il
crise sanitária desencadeou uma engrenagem de crises que são concatenadas. Essa policrise ou megacrise se estende do existencial ao político, passando pela economia, do individuo ao planetário, passando por famílias, regiões, Estados. Em suma, um minúsculo vírus de uma cidade ignorada da China desencadeou uma convulsão no mundo.
Como crise planetária, põe em evidência a comunidade de destino de todos os humanos e sua ligação inseparável com o destino bio-ecológico do planeta Terra; intensifica simultaneamente a crise da humanidade que não chega a se constituir enquanto humanidade.
Como crise econômica, abala todos os dogmas que comandam a economia e ameaça transformar nosso futuro em caos e penúria.
Como crise nacional, revela as carências de uma política que prioriza o capital em detrimento do trabalho, sacrificando prevenção e precaução para ampliar a rentabilidade e a competitividade.
Como crise social, evidencia as desigualdades entre os que vivem em pequenas moradias populares com crianças e parentes, e aqueles que puderam fugir para uma segunda residência no campo.
Como crise civilizacional, a crise nos leva a perceber as carências de solidariedade e a intoxicação do consumismo desenfreado de nossa civilização, e nos obriga a refletir sobre uma política de civilização.
Como crise intelectual, deveria nos revelar o enorme buraco negro que existe em nossa inteligência, fato este que torna invisíveis as evidentes complexidades do real.
Como crise existencial, nos obriga a questionar nosso modo de vida, nossas verdadeiras necessidades, nossas verdadeiras aspirações encobertas pela alienação da vida cotidiana, a saber diferenciar o entretenimento pascaliano, que nos desvia de nossas verdades, da felicidade que encontramos na leitura de um livro, na escuta ou na contemplação das obras-primas que nos fazem encarar nosso destino humano.
crise deveria, sobretudo, abrir nossas mentes, há bastante tempo reduzidas ao imediato, ao secundário e ao frívolo, para o essencial: a importância do amor e da amizade para nosso florescimento pessoal, para a comunidade e para a solidariedade de nossos “eus” nos “nossos”, para o destino da Humanidade, dentro da qual cada um de nós é uma mera partícula. Em suma, o confinamento físico deveria favorecer o desconfinamento mental.
A experiência do confinamento
experiência do confinamento domiciliar por tempo indeterminado imposto por uma nação é uma experiência surpreendente. O confinamento do gueto de Varsóvia permitia que seus habitantes circulassem pela cidade. Mas o confinamento do gueto preparava a morte, e nosso confinamento é uma defesa da vida. Eu o vivencio em condições privilegiadas, em um apartamento térreo com jardim, onde posso tomar sol e me alegrar com a chegada da primavera, bastante protegido por Sabah, minha esposa, cercado por amáveis vizinhos que fazem nossas compras, me comunicando com meus próximos, meus amores, meus amigos, atendendo a pedidos da imprensa, rádio ou televisão, para oferecer meu diagnóstico, o que posso fazer por Skype. Sei, porém, que desde o começo, muita gente que vive em habitações exíguas não suporta a superlotação , que os solitários e sobretudo os sem-teto são as vítimas do confinamento.
Reconheço que um confinamento duradouro será cada vez mais vivido como um impedimento. Os vídeos não vão substituir por muito tempo a ida ao cinema, os tablets não podem substituir indefinidamente a ida à livraria. O Skype e o Zoom não substituem o contato físico, o tilintar do copo que brindamos. Mesmo que seja excelente, a comida caseira não elimina o desejo de ir a um restaurante. Os filmes documentários não suprirão a vontade de viajar para ver paisagens, cidades e museus, não acabarão com meu desejo de rever a Itália e a Espanha. A redução ao indispensável também propicia a sede pelo supérfluo.
Espero que a experiência do confinamento possa moderar nosso impulso consumista, a fuga para Bangkok para trazer presentes e lembranças para contar aos amigos, espero também que o confinamento contribua para diminuir o consumismo, ou seja, a intoxicação consumista e a obediência aos apelos publicitários, em prol dos alimentos saudáveis e saborosos, de produtos duráveis e não descartáveis. Será preciso, porém, outros estímulos e novas tomadas de consciência para que uma revolução social venha a ocorrer. De qualquer forma, resta a esperança de que a lenta evolução já iniciada se acelere.

Rumo a um humanismo regenerado?

Antes de tudo, o que os cidadãos e os poderes públicos conservarão da experiência do confinamento? Somente uma parte? Tudo será esquecido, cloroformizado ou folclorizado? O que parece mais provável é que a propagação do digital, amplificada pelo confinamento (teletrabalho, teleconferências, Skype, uso intensivo da Internet), continuará com seus aspectos positivos e negativos, que não é o caso de expor aqui. Vamos ao essencial.
A saída do confinamento será o começo da saída da megacrise ou seu agravamento? Boom ou depressão? Uma enorme crise econômica? Uma crise alimentar mundial?
Continuação da mundialização ou isolamento autárquico? Qual será o futuro da mundialização?
neoliberalismo ameaçado retomará o comando? As nações gigantes vão se opor mais que no passado? Os conflitos armados, mais ou menos atenuados pela crise, se aprofundarão?
Haverá um dinamismo internacional capaz de salvar a cooperação? Haverá algum progresso político, econômico, social, como houve logo após a segunda guerra mundial?
Se prolongará ou se intensificará o despertar da solidariedade provocada durante o confinamento, não somente pelos médicos e médicas, pelos enfermeiros e enfermeiras mas também pelos garis, pelos encarregados de manutenção, entregadores, caixas, sem os quais não poderíamos sobreviver, mesmo que tenhamos prescindido do Medef - Movimento das empresas da França - ou do CAC 40 - índice da bolsa de valores que reúne as quarenta maiores empresas da França-?
As inumeráveis e dispersas práticas solidárias de antes da epidemia serão amplificadas?
Os desconfinados retomarão o ciclo cronometrado, acelerado, egoísta, consumista? Ou haverá um novo renascimento da vida convivial e amorosa rumo a uma civilização na qual se desenvolve a poesia da vida, onde o “eu” floresce em um “nós”?
Não podemos saber se após o confinamento novos caminhos e ideias vão desabrochar, ou mesmo revolucionar a política e a economia, ou se a ordem abalada se restabelecerá. Podemos temer fortemente a regressão generalizada observada já durante o curso dos vinte primeiros anos deste século (crise da democracia, corrupção e demagogia triunfantes, regimes neo-autoritários, retomadas nacionalistas, xenófobas, racistas).
Todas essas regressões (e na melhor das hipóteses estagnações) são prováveis enquanto não emergir uma nova via política-ecológica-econômica-social guiada por um humanismo regenerado. Tal humanismo multiplicaria as verdadeiras reformas, que não reduções orçamentárias, mas reformas da civilização, da sociedade, ligadas às reformas de vida. Ela associaria, como indiquei em A Via, termos contraditórios: “mundialização” (para tudo que é cooperação) e “desmundialização” (para garantir uma autossuficiência alimentar e preservar seus territórios da desertificação); “crescimento” (da economia de necessidades essenciais, sustentáveis, da agricultura familiar ou orgânica) e “decrescimento” (da agropecuária industrial, da economia do supérfluo, do frívolo, do descartável); “desenvolvimento” (de tudo que produz bem-estar, saúde, liberdade) e “envolvimento” (nas solidariedades comunitárias).
pós-epidemia será uma aventura incerta na qual se desenvolverão as forças do pior e do melhor, estas últimas estando ainda debilitadas e dispersas. Saibamos enfim que o pior não é certo, que o improvável pode irromper, e que, no titânico e inextinguível combate entre inimigos inseparáveis são Eros e Tânatos, é sensato e revigorante tomar parte de Eros.
gripe espanhola deixou em minha mãe, Luna, uma lesão no coração e a recomendação médica de não ter filhos. Ela tentou dois abortos, o segundo fracassou, mas a criança nasceu quase morta asfixiada, estrangulada pelo cordão umbilical. Talvez eu tenha adquirido ainda no útero as forças de resistência que me acompanharam por toda minha vida, mas eu não teria sobrevivido sem a ajuda do outro, o ginecologista, que me estapeou durante meia-hora até que eu pudesse soltar meu primeiro grito, em seguida a sorte durante a Resistência, o hospital (hepatite, tuberculose), o amor que alimentou minha vida e minha obra, Sabah, minha companheira e esposa. É verdade que o “elã vital” jamais me abandonou; ele até cresceu durante a crise mundial. Toda crise me estimula, e esta, de imensas proporções, pela qual passamos agora, me estimula enormemente.

Notas

[1Sur la crise. Paris: Flammarion, mars 2020, « Champs Essais ».
[2Une politique de civilisation. Avec Sami Naïr. Paris: Arléa, 1997.
[3La Voie. Pour le futur de l’humanité. Paris: Fayard 2012.

Nota do Editor


Esta edição eletrônica do livro Um Festival de Incertezas de Edgar Morin foi produzida no dia 21 de abril de 2020 pela editora Gallimard.
Em tempos sombrios, há duas atitudes possíveis. De um lado, desilusão e renúncia, alimentadas pela constatação que os tempos da reflexão e da decisão não têm mais nada em comum; de outro, a atenção renovada, da qual o retorno dos registros de reivindicações e a reativação de um amplo debate nacional são testemunhos. Nossa liberdade de pensar, como todas as nossas liberdades, não pode se exercer fora de nossa vontade de compreender.
Eis por que a coleção “Fôlders” fará inserir no debate mulheres e homens que integram as humanidades, acolhendo ensaios em sintonia com seu tempo, mas extremamente diferenciados tendo em vista sua própria singularidade. Tais vozes devem se fazer ouvir em todos os lugares, como foi o caso dos grandes “fôlders da Nouvelle Revue Française”, surgidos nos anos 1930, assinados por André GideJules RomainsThomas Mann ou Jean Giono – que em seu tempo relembravam: “Nós vivemos as palavras quando elas são justas.” Poderemos todos juntos fazer reviver uma bela exigência como essa?



Nota do Editor

Esta edição eletrônica do livro Um Festival de Incertezas de Edgar Morin foi produzida no dia 21 de abril de 2020 pela editora Gallimard.

Antoine Gallimard.
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/599773-um-festival-de-incerteza-artigo-de-edgar-morin

sábado, 9 de maio de 2020

PLANEJAMENTO CURRICULAR EM FASE DE PANDEMIA-2020

Portaria-SEI Nº 184, de 04 de maio de 2020.

Dispõe sobre as Normas para reorganização do planejamento curricular do ano de 2020, com a finalidade de orientar os Planos de Atividades e a inclusão de atividades não presenciais na Rede Pública de Ensino do Rio Grande do Norte, em regime excepcional e transitório, durante o período de isolamento social motivado pela pandemia da COVID-19.

O Secretário de Estado da Educação, da Cultura, do Esporte e do Lazer, no uso de suas atribuições legais e,
Considerando os Decretos Estaduais nº 29.524, de 17 de março de 2020; nº 29.583, de 1° de abril de 2020 e nº 29.634, de 23 de abril de 2020, do Governo do Estado do RN;
Considerando a Instrução Normativa nº 01/2020 – CEE/SEEC – RN, de 05 de abril de 2020;
Considerando o Parecer do Conselho Nacional de Educação, de 28 de abril de 2020.
RESOLVE:
Art. 1º Aprovar as Normas para reorganização do Planejamento Curricular do Ano de 2020, com a finalidade de orientar os Planos de Atividades e a inclusão de atividades não presenciais na Rede Pública de Ensino Do RN, em regime excepcional e transitório, durante o período de isolamento social motivado pela pandemia da COVID-19.
Art. 2º Estas Normas serão aplicadas às unidades escolares e espaços não escolares, enquanto durarem as recomendações de isolamento social, atendendo à necessidade de reposição da carga horária anual dos componentes curriculares obrigatórios.
Art. 3º As Redes Municipais de Ensino, nos limites de sua competência e autonomia, por espontânea adesão, poderão adotar as orientações constantes nestas Normas.
Art. 4º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação, atendendo retroativamente às normativas estabelecidas na legislação pertinente.
Publique-se. Registre-se. Cumpra-se.     
Getúlio Marques Ferreira
Secretário de Estado da Educação, da Cultura, do Esporte e do Lazer
Normas para reorganização do Planejamento Curricular do ano de 2020, com a finalidade de orientar os Planos de Atividades e a inclusão de atividades não presenciais na Rede Pública de Ensino do RN, em regime excepcional e transitório, durante o período de isolamento social motivado pela pandemia da COVID-19.
I. INTRODUÇÃO
  1. A Secretaria de Estado da Educação, da Cultura, do Esporte e do Lazer do Rio Grande do Norte – SEEC/RN, sensível às necessidades educacionais e emocionais dos estudantes e dos profissionais da educação, que se encontram em isolamento social, em razão das determinações dos Decretos nº 29.524, de 17 de março de 2020; nº 29.583, de 1º de abril de 2020 e nº 29.634, de 23 de abril de 2020, do Governo do Estado do RN, que suspendem as “atividades escolares presenciais das Unidades da Rede Pública e Privada de Ensino”, no período de 18 de março a 31 de maio de 2020, em decorrência da pandemia da COVID-19, apresenta as Normas para reorganização do Planejamento Curricular do Ano Letivo 2020. Essas Normas, em regime excepcional e transitório, orientam as atividades escolares não presenciais nas etapas e modalidades da Educação Básica em espaços escolares e não escolares, atendendo às determinações da Instrução Normativa n° 01/2020 – CEE/SEEC – RN, de 05 de abril de 2020, e às orientações do Parecer do Conselho Nacional de Educação - CNE, de 28 de abril de 2020.
  2. Ciente da necessidade de encontrar formas de aproximar estudantes e escolas, e de utilizar as ferramentas tecnológicas para realização de atividades não presenciais para a Rede Pública de Ensino do RN, a SEEC esclarece que as estratégias metodológicas tratadas neste documento não se caracterizam, stricto sensu, em metodologias de Educação a Distância (EaD). Ao contrário, as estratégias propostas envolvem a oferta de atividades pedagógicas não presenciais, a partir de diversos meios, recursos e tecnologias comunicacionais e informacionais, tentando superar as limitações de acesso e de participação para a totalidade dos estudantes da rede.
  3. Nesse sentido, a SEEC, por meio da Coordenadoria de Desenvolvimento Escolar - CODESE e suas Subcoordenadorias de Ensino, da Coordenadoria das Regionais de Educação - CORE, em uma ação conjunta com as Diretorias Regionais de Educação e Cultura - DIREC e escolas, assume a responsabilidade de construir essas Normas, para que a Rede Pública de Ensino elabore Planos de Atividades, buscando assegurar os princípios educação pública, laica, plural, democrática, inclusiva e de qualidade previstos do artigo 3º da Lei n° 9394/1996 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDBEN e inciso VII do artigo 206, da Constituição Federal de 1988, com os seguintes objetivos:
a. Contribuir para o desenvolvimento integral dos estudantes, disseminando conhecimentos científicos e culturais, referentes ao atual contexto de crise sanitária, econômica e educacional mundial e local;
b. Viabilizar meios diversos que possibilitem a efetivação dos processos de ensino e de aprendizagem, atendendo às especificidades das etapas, modalidades e às condições objetivas de acesso a todos os estudantes às mídias e materiais pedagógicos, de forma acessível, criativa, crítica e inclusiva;
c. Cooperar com o desafio de ensinar em situações de distanciamento das escolas, respeitando a autonomia docente, agregando a formação de atitudes e de valores essenciais para vida dos estudantes e dos profissionais do magistério;
d. Estabelecer, intersetorialmente, um diálogo permanente com Secretarias Municipais de Assistência Social, Secretarias Municipais de Saúde, Esportes, Conselhos de Direitos, Conselhos Tutelares, dentre outros, em defesa, promoção e proteção dos direitos da criança e do adolescente, incluindo os preceitos e princípios da educação em direitos humanos nas atividades não presenciais;
e. Criar estratégias de acompanhamento e de registro das atividades não presenciais, desenvolvidas por professores e estudantes no período de isolamento social, com articulação e planejamento entre a SEEC, as DIREC e as escolas (diretores, professores, coordenador e apoio pedagógicos, membros do Conselho Escolar, entre outros).
II. REGIME EXCEPCIONAL E TRANSITÓRIO DE ATIVIDADES NÃO PRESENCIAIS
  1. Ancoradas nas orientações da Organização Mundial da Saúde - OMS, as medidas protetivas à saúde física e psicológica dos nossos estudantes são legítimas, sendo igualmente autênticas as estratégias ou alternativas para garantia do seu direito à aprendizagem no território potiguar e à democratização do acesso ao conhecimento. Preocupa à SEEC, portanto, o fato de os estudantes estarem distanciados das escolas, sem aulas presenciais, excluídos das oportunidades de aprenderem e de desenvolverem-se social, emocional e cognitivamente. O intuito é apoiá-los, tanto emocionalmente quanto na continuidade de suas aprendizagens, embora reconhecendo a conjuntura complexa vivenciada e as limitações estruturais historicamente existentes para completa inclusão dessas atividades não presenciais como carga horária letiva.
  2. Nesse contexto, a partir da Instrução Normativa do CEE-RN, a SEEC orienta a reorganização do Calendário Escolar de 2020 para as escolas da Rede Pública de Ensino do Rio Grande do Norte, apontando possibilidades:
a. O desenvolvimento de atividades não presenciais durante o período de isolamento, por meio de recursos diversos, que visam, principalmente, à interação social com os estudantes durante esse processo de isolamento, com atividades organizadas pelos professores e orientadas pela coordenação pedagógica em cada escola, que poderão ser consideradas para o cômputo da carga horária mínima anual, prevista nas normativas vigentes;
b. Na impossibilidade de acompanhar os estudantes nesse período de suspensão de aulas presenciais, com atividades não presenciais, as Unidades Escolares devem aguardar as orientações para reposição dos dias letivos, após o período de isolamento social e de negociações sobre o novo Calendário Escolar na Rede Estadual. No processo de reorganização do novo calendário, é possível a ampliação da carga horária diária com a realização de atividades pedagógicas não presenciais (mediadas ou não por tecnologias digitais de informação e comunicação) concomitante ao período das aulas presenciais.
  1. Diante dessas possibilidades, as Unidades Escolares devem dialogar internamente e definir sua posição, a ser encaminhada, por meio de justificativa, à DIREC, que enviará à SEEC, posteriormente, o conjunto dos Planos, para registro e acompanhamento. Nessas Normas, orientamos as atividades não presenciais, no período de isolamento social, entendendo que podem ser consideradas em relação aos procedimentos a serem adotados no retorno às atividades escolares presenciais, na perspectiva de reposição da carga horária anual obrigatória.

III. ELABORAÇÃO DO PLANO DE ATIVIDADES NÃO PRESENCIAIS
  1. Essas Normas partem do pressuposto de que a docência é uma atividade essencial e que nada substitui a ação docente e as interações entre professores e estudantes na sala de aula ou em contextos não escolares, para assegurar o direito à educação pública de qualidade.
  2. Pressupõem, também, que o processo de construção de propostas de trabalho emergenciais e transitórias, contendo atividades escolares não presenciais, precisam ser negociadas democraticamente na escola, articuladas entre diretores, coordenadores e apoios pedagógicos e professores, reunidos de maneira não presencial, visando garantir o direito à aprendizagem do estudante, monitoradas e registradas para, posteriormente, serem analisadas e associadas às atividades presenciais como forma de complementação e consolidação do ano letivo de 2020.
  3. Nessa discussão coletiva, deve-se considerar a necessidade de analisar a reorganização do calendário para o ano de 2020, dimensionada no contexto de crise sanitária e educacional e de mudanças que, provavelmente, afetarão os próximos anos letivos, em especial o ano de 2021.
  4. As atividades não presenciais devem respeitar o direito de todo estudante à aprendizagem, incluindo o uso de tecnologias, fontes e meios de aprendizagens diversos, adotando variados recursos didáticos, múltiplos canais e ferramentas de comunicação e informação de natureza digital, impressa, televisiva ou radiofônica para alcançar todos os estudantes e atingir os objetivos do ensino-aprendizagem, durante o período de suspensão das atividades escolares presenciais.
  5. Nesse sentido, cada escola definirá as atividades não presenciais possíveis e adequadas, no sentido de interagir com os estudantes, podendo dar continuidade aos processos de aprendizagem de crianças, jovens e adultos, seguindo a primeira alternativa apresentada pela Instrução Normativa do CEE-RN. Para tanto, elaborará um Plano de Atividades a ser encaminhado para a DIREC, destacando os objetivos de ensino, os componentes curriculares, a carga horária trabalhada a partir do conjunto de atividades oferecidas aos estudantes semanal ou quinzenalmente, os objetos de conhecimento, as atividades desenvolvidas e estratégias para interação não presencial utilizadas, conforme sugestão de instrumento (Anexo I).
  6. O Plano de Atividades da escola, produto da articulação e colaboração da comunidade escolar, deve considerar:
I. O acompanhamento sistemático da carga horária utilizada em atividades não presenciais, com vistas à reposição da carga horária anual, automaticamente registrada no limite de 20% da carga horária anual do componente curricular, desde que constante no Plano de Atividades da escola. Caso a carga horária não presencial ultrapasse esse percentual, deverá ser avaliada pela equipe pedagógica da escola, sobre a possibilidade de aproveitamento. A reposição total da carga horária anual na Rede Estadual será definida no contexto das negociações do novo Calendário Escolar de 2020, a depender do tempo de suspensão das atividades presenciais, considerando as diferentes situações que constituem o Sistema Estadual de Ensino do RN, nas Redes Pública e Privada. As atividades não presenciais serão avaliadas para reposição do calendário letivo, de todas as etapas e modalidades de ensino, pela equipe pedagógica da escola, considerando a aderência ao Projeto Político-Pedagógico da escola e às competências e habilidades estabelecidas nas orientações curriculares do Estado, a preservação dos princípios de qualidade social do ensino-aprendizado, bem como respeitadas as diferentes faixas etárias, as condições humanas, sociais, culturais e as necessidades educacionais dos estudantes;
II. O registro e acompanhamento na regularidade da participação do estudante nas atividades não presenciais realizadas, preservando a possibilidade de sua não participação em todos os trabalhos, já estabelecidos em 25% da frequência, sendo esse limite também analisado no processo de avaliação das atividades para reposição da carga horária, consideradas no contexto das singularidades da etapa ou modalidade e dos parâmetros de qualidade social do ensino-aprendizado;
III. O alcance a 100% dos estudantes da turma em atividades não presenciais propostas, oferecendo diferentes possibilidades de participação, enfatizando o uso de livros didáticos e literários, já planejados e adquiridos pela escola, atividades ou metodologias diversificadas, seja por meio de canais de acesso digital, de meio de materiais impressos, de meios televisivos ou radiofônicos, entre outros;
IV. Abordagens contextualizadas e de fácil compreensão, evitando excessos de elementos conteudistas e interações explicativas, bem como a sobrecarga de atividades para os estudantes e as atividades práticas, em especial nos cursos profissionais. Privilegiar atividades de consolidação de conteúdos já trabalhados, planejados de acordo com o Projeto Político-Pedagógico da Escola e os planos de ensino anuais dos professores, com temáticas diversas e dinâmicas, desenvolvidas por meio de metodologias de projetos de trabalho, ateliês ou com temas geradores, entre outras. Incluir atividades, privilegiando as habilidades da leitura, escrita, compreensão e raciocínio lógico matemático, essenciais para o desenvolvimento de todos os componentes curriculares, articulando os conhecimentos necessários para que o estudante avance no ano/série. Importante incorporar, ainda, a temática da pandemia da Covid-19 nas atividades não presenciais, por meio da transversalidade ou interdisciplinaridade, sendo essencial divulgar e reforçar a gravidade e a propagação da doença, assim como a sua prevenção e controle;
V. Atenção redobrada e preparação de atividades especiais aos estudantes inseridos em grupo de risco, acometidos de comorbidades ou em situação vulnerável. Esses estudantes não terão como retornar às aulas presenciais, enquanto perdurar o contexto de pandemia, exigindo o planejamento da continuidade do ensino remoto e a consequente avaliação sob a perspectiva dos casos excepcionais, assegurando-lhes o direito à educação e ao cuidado com a saúde;
VI. Não realizar avaliações e atribuições de notas, conforme determina o inciso 3° da Instrução Normativa do CEE. As avaliações serão realizadas após o período de isolamento, antecedidas de revisão dos objetos de conhecimentos e habilidades desenvolvidos, de forma presencial e por meio de avaliações diagnósticas e formativas, levando em consideração a Portaria de Avaliação vigente, Portaria SEI n° 356, de 08 de outubro de 2019;
VII. A correspondente organização do trabalho pedagógico, metodologias interativas, materiais, recursos e livros didáticos e literários, a carga horária prevista para execução da atividade, bem como a forma de acompanhamento das atividades não presenciais. Se for necessária a entrega de material na escola, devem ser considerados os cuidados com a higienização, com a não aglomeração e com o contato pessoal correspondentes a esse momento;
VIII. Um Ambiente Virtual de Aprendizagem para a interação entre professores e estudantes e desenvolvimento das atividades no período de isolamento social, com formas definidas de registros e acompanhamentos. Observar as especificidades dos ambientes de aprendizagem adotados, para que as atividades tornem-se coerentes e propositivas, no que tange à formação do estudante, podendo articular diferentes Plataformas com o uso da Escola Digital, conforme sugestões apresentadas no tópico 4 deste documento;
IX. Estratégias diversas para estabelecer interações e atividades escolares no período de isolamento social, reconhecendo as necessidades de aprendizagem dos estudantes nas diferentes etapas e modalidades de ensino, as necessidades educativas especiais, da educação do campo e da educação de jovens e adultos, e as limitações, quando for o caso, de acesso aos recursos tecnológicos dos estudantes atendidos pela Rede Estadual de Ensino;
X. Outras formas de interação com os estudantes que não têm acesso às Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação - TDIC, como a entrega de material impresso, o rádio, a televisão, entre outras possibilidades e oportunidades, para que se desenvolvam e aprendam continuamente;
XI. Orientações aos pais ou responsáveis sobre as atividades escolares encaminhadas, em comunicação por meio de celulares, ferramentas digitais, alertando sobre a importância de estabelecer rotina de estudos em casa e desenvolver os estudos propostos;
XII. Estratégias de acompanhamento, monitoramento e apoio das atividades desenvolvidas por professores e estudantes no período de isolamento social, pela coordenação e apoio pedagógicos, com orientações dos Assessores Pedagógicos das DIREC, o que pode ser consignado em forma de portfólio ou outra forma proposta pelo professor, a serem registradas em ficha de acompanhamento. Para a Rede Estadual de Ensino, o registro para acompanhamento e monitoramento das atividades e da frequência deve ser realizado integralmente no SIGeduc;
XIII. Relatório Final para efeito de registro e crédito das atividades programadas, que deverá ser feito, exclusivamente, no SIGeduc, com as atividades inseridas na escola digital, podendo ter o formato de um portfólio que auxilie a DIREC e a SEEC no acompanhamento do trabalho. O professor pode registrar atividades em período anterior ao dia 05 de abril de 2020, solicitando a avaliação para possível aproveitamento, desde que sejam considerados os mesmos critérios estabelecidos nessas Normas e orientações.
  1. A SEEC, as DIREC e as Unidades Escolares podem considerar, ainda, na reorganização do planejamento curricular, abordagens e encaminhamentos que contemplem:
a. As condições e a estrutura das escolas para o desenvolvimento das atividades não presenciais, assegurando a equidade e a qualidade da aprendizagem entre os estudantes;
b. A interação das escolas com as famílias na orientação e suporte das atividades a serem acompanhadas, contribuindo para atitudes de autonomia e de estudos nos estudantes;
c. As atividades formativas dos professores para utilização das ferramentas tecnológicas e a dignificação da profissão;
d. O planejamento coletivo e participativo na escola, com envolvimento dos gestores, professores, coordenadores, baseados no Projeto Político-Pedagógico da escola e na construção de soluções próprias e específicas em seus territórios educativos e culturais;
e. O acompanhamento sistemático do acesso e disponibilidade dos estudantes pela SEEC, DIREC e escolas, realinhando o planejamento das atividades para assegurar o acesso dos estudantes às atividades não presenciais;
f. Orientações complementares quanto às especificidades das etapas e modalidades de ensino, bem como a elaboração de instrumentos e procedimentos para o monitoramento e acompanhamento;
g. Articulação da SEEC e das DIREC para o planejamento entre educação básica e ensino superior, refletindo sobre formas de organização desses níveis, para assegurar a integração e a qualidade das aprendizagens dos estudantes, fortalecendo as atividades escolares, apoiadas por pesquisadores e estudiosos das Universidades, Institutos de Formação e Institutos Federais de Educação.
 IV. ESTRATÉGIAS UTILIZADAS
  1. Escola Digital, Escola na Rede, Ambiente Virtual de Aprendizagem, inserido no Sistema Integrado de Gestão da Educação - SIGeduc, possibilitando a realização de webconferências.
  2. O SIGeduc apresenta uma compilação de links contendo materiais temáticos, módulos de autoaprendizagem, proposições de ensino, parâmetros e referenciais, recursos em diversos formatos para fundamentação e enriquecimento do processo ensino-aprendizagem.
  3. Assim, a SEEC disponibiliza Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação - TDIC para todas as escolas vinculadas à Rede Estadual de Ensino, que poderão ser auxiliadas pelos técnicos de tecnologia das DIREC, coordenado pelo Grupo de Processamento de Dados – GPD/SEEC.
  4. Plataformas virtuais, a exemplo do Clickideia, Google Education, o Google Classroom, Duo, a agenda virtual, Hangouts Meet, Conteúdos no Portal SESI,entre outras.
  5. Disponibilização de vídeo aulas no Youtube por diversas instituições de Ensino do Rio Grande do Norte.
  6. Produção de material impresso a ser disponibilizado para as famílias, de acordo com programação divulgada com antecedência, sendo possível contemplar também ferramentas de mensagens instantâneas, grupos e comunidades em redes sociais.
  7. Orientações de leituras diversas e estudos no livro didático, livros de literatura e de artigos de opinião, entre outros materiais.
  8. Produção de materiais para televisão, rádios ou computadores, a serem veiculados na TV Assembleia, TV Universitária, UERN TV ou outros canais de acesso.
  9. Utilização de material de aulas em televisão ou rádio, com programação divulgada com antecedência nos portais educacao.rn.gov.br.
  10. Disponibilização de equipe técnicas, pedagógicas e administrativas na SEEC e nas DIREC para acompanhar o planejamento e resolução de dúvidas a respeito dessas Normas, auxiliando os professores e educadores quanto ao uso de tecnologias digitais para o trabalho remoto, atividades e eventos não presenciais.
V. REFERÊNCIAS:
BRASIL. Constituição da República federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988.
BRASIL. Ministério de Educação e Cultura. Lei de Diretrizes e Bases - LDB, Lei nº 9394/96, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da Educação Nacional. Brasília: MEC, 1996.
CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Parecer sobre reorganização dos calendários escolares e realização de atividades pedagógicas não presenciais durante o período de pandemia da covid-19, de 28 de abril de 2020. Aprova Parecer com diretrizes para Reorganização dos Calendários Escolares e Realização de Atividades não presenciais pós retorno.
RIO GRANDE DO NORTE. Decreto nº 29.524, de 17 de março de 2020. Dispõe sobre medidas temporárias para o enfrentamento da Situação de Emergência em Saúde Pública provocada pelo novo Coronavírus (COVID-19). Diário Oficial do Rio Grande do Norte, Natal, ano 87, n. 14.621, 2020.
RIO GRANDE DO NORTE. Decreto nº 29.583, de 1° de abril de 2020. Consolida as medidas de saúde para o enfrentamento do novo coronavírus (COVID-19) no âmbito do Estado do Rio Grande do Norte e dá outras providências. Diário Oficial do Rio Grande do Norte, Natal, ano 87, n. 14.635, 2020.
RIO GRANDE DO NORTE. Secretaria da Educação, da Cultura, do Esporte e do Lazer do Rio Grande Do Norte; Conselho Estadual De Educação. Instrução normativa nº 01/2020, de 05 de abril de 2020 – CEE. Dispõe sobre regime excepcional e transitório, de atividades escolares não presenciais nas instituições de ensino integrantes do Sistema Estadual de Educação do Rio Grande do Norte, atendendo às decisões de isolamento social definidas pelo Governo do Estado com o fim de evitar e combater o avanço da pandemia causada pelo coronavírus (COVID-19). Diário Oficial do Rio Grande do Norte, Natal, ano 87, n. 14.641, 2020.
SECRETARIA DA EDUCAÇÃO, DA CULTURA, DO ESPORTE E DO LAZER. Portaria de Avaliação da SEEC, Portaria SEI n° 356, de 08 de outubro de 2019. Estabelece as Normas de Avaliação da Aprendizagem Escolar para a Rede Estadual de Ensino e dá outras providências. Diário Oficial do Rio Grande do Norte, Natal, ano 86, n. 14.516, 2020.


VI. CRONOGRAMA
CRONOGRAMA
PERÍODO
ATIVIDADES
17/03 a 01/04/2020
Primeiro período de suspensão das atividades escolares, conforme o Decreto de nº 29.524, de 17 de março de 2020. (11 dias letivos)
02/04 a 23/04
Segundo período de suspensão das atividades escolares, conforme Decreto de nº 29.583, de 1° de abril de 2020. (13 dias letivos).
05/04/2020
Publicação da INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 01/2020 – CEE/SEEC – RN.
24/04 a 31/05
Terceiro período de suspensão das atividades escolares, conforme Decreto nº 29.634, de 23 de abril de 2020 (28 dias)
30/04/2020
Divulgação das Normas para elaboração do Plano de Trabalho das atividades escolares não presenciais, junto às escolas da Rede Estadual de Ensino, amparado pela Instrução Normativa nº 01/2020, de 05 de abril de 2020 e pelo Parecer do CNE, de 28 de abril de 2020.
10 dias após a divulgação das orientações
Encaminhamento do Plano de Trabalho da Escola para a DIREC e registro no SIGeduc de cada turma.


VII – ANEXO

SUGESTÃO DE PLANO DE TRABALHO DA ESCOLA
ESCOLA ______________________________________________________________________
OFERTA(S) ____________________________________________________________________
TURNOS ______________________________________________________________________
PERÍODO ____/ ____/ _______  a _____/ _____/ _______
DIREÇÃO _____________________________________________________________________
OBJETIVOS DE ENSINO:
DE:
Nome do Componente (carga horária não presencial)
Objeto (s) de conhecimento
Atividades desenvolvidas
Estratégias para interação não presencial