terça-feira, 16 de setembro de 2014

O professor não é um rato

Certa vez, um professor cismou que era um rato. Passou a comer restos de comida todos os dias. Trazia lixo para dentro de casa. Rastejava. Deixou os fios de seu bigode crescerem. Acreditava que eram uma antena que o ajudava a se locomover em ambientes sem luz.
 
Exprimia-se entre espaços apertados. Era comum vê-lo enfiar as mãos em brechas de paredes. Abria a geladeira e cheirava com impaciência todos os alimentos. Ficava roendo páginas de livros. Estava sempre à espreita, desconfiado.
 
Familiares e amigos, assustados com seu comportamento, resolveram levá-lo a uma clínica psiquiátrica, onde os médicos, durante meses a fio, se empenharam em fazer o professor tomar consciência de que era um professor, e não um rato. Lutaram para que se lembrasse de seu conhecimento, dos milhares de alunos que ajudou a formar, das centenas de milhares de provas e trabalhos que corrigiu.
 
Não era fácil. O professor queria fugir. Olhava para os médicos como uma cobaia presa no laboratório. Andava de um lado para o outro como se estivesse dentro de um labirinto. Às vezes, encurralado no canto de uma sala, tremia e guinchava.
 
Graças à persistência dos médicos, o professor foi aos poucos recuperando a sua personalidade. Perguntavam-lhe todos os dias: "O senhor é um professor ou um rato?" E lhe davam mil e um argumentos para se convencer de que era, de fato, não um rato. De que era um professor, um mestre, um educador!
 
Depois de um ano letivo inteiro, o professor deu sinais de que estava curado. As avaliações inter e multidisciplinares, os testes constantes, as provas, os exames indicavam que o professor voltara a ser professor. Nada de aprovação automática. Sua recuperação foi supervisionada passo a passo.
 
Num belo dia, os médicos deram-lhe alta com notas altas! E lhe disseram que podia voltar a lecionar.
 
O professor se despediu, caminhou pelo longo corredor, até sumir das vistas dos médicos e enfermeiros.
 
Dois minutos depois, o professor entrou espavorido, suando frio, olhos arregalados, na sala de um dos médicos. Gritava:
 
— Doutor! Pelo amor de Deus! Me ajude! Tem um gato na saída da clínica!
 
— Mas, professor, o senhor não precisa ter medo. O senhor é um professor, lembra-se? É um professor e não um rato.
 
— Certo, doutor. Isso eu já sei. Mas será que o gato também sabe?
 
Gabriel Perissé

domingo, 14 de setembro de 2014

AÍ SE EU TE PEGO...

“Ai se eu te pego”: uma análise comparativa

Analiso abaixo a letra da canção “Ai se eu te pego”, interpretada por Michel Teló, sucesso nacional e internacional. Na primeira estrofe, temos...

Sábado na balada
A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda
Tomei coragem e comecei a falar

Cada verso e cada palavra de Teló nos conduzem a universos paralelos da cultura. O primeiro verso faz menção ao “Porque hoje é sábado”, em que Vinícius de Moraes revê a criação do mundo.

A balada a que se refere Teló alude àquele antigo poema com que se narrava alguma tradição histórica, acompanhado ou não por instrumentos musicais. Ou àquela peça puramente instrumental como cultivavam Chopin, Brahms ou Liszt.

A supracitada galera (“turma”, “amigos”, “gente”) de Teló se equipara ao decassílabo “Vogo em minha galera ao som das harpas”, de um poema de Castro Alves.

Reportando-se de novo ao poetinha Vinícius de Moraes (“Garota de Ipanema”), Teló também contempla a menina linda que passa. E vai além. Em êxtase, tomado pela excitação poética, num ato de coragem extrema, o baladeiro se declara:

Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego
Delícia, delícia
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego

A dupla exclamação — “nossa, nossa” — nos remete à admiração de que falava Aristóteles como ponto de partida da reflexão filosófica, ou pode se tratar também de uma forma reduzida da interjeição “Nossa Senhora!”, inserindo o poema no amplo cenário (e não menor mercado) das composições religiosas.

Outra referência inconfundível é o locus poético em que amor e morte se encontram — o clássico “morrer de amor”. O verso “Assim você me mata”, que o cantor faz acompanhar com o abanar da mão em direção ao rosto (simulando morte por asfixia ou enfarte), equipara-se a momentos sublimes da poesia romântica de Gonçalves Dias ou Casimiro de Abreu. Há, entre outros exemplos, um soneto em que Camões, dirigindo-se ao Amor, com ele se queixa: “Que vida me darás se tu me matas?”

Aqui termina o poema de Teló, com uma concisão que lembra Paulo Leminski e Mario Quintana.

Mas parece que os imortais que acima citei não gostaram das comparações feitas aqui. Das suas tumbas erguem-se vozes, cantando em uníssono:

Perissé, Perissé
Assim você nos mata!

sábado, 13 de setembro de 2014

Políticas Públicas.

Educadores no exílio

Por que os grandes educadores brasileiros não inspiram o labor das escolas
José Pacheco

Era uma vez...duas escolas, lado a lado a um córrego poluído. Por décadas, essas escolas deram aula de educação ambiental a alunos moradores de palafitas precariamente edificadas sobre o córrego. Até que uma das escolas alterou o seu modus operandi e os efeitos não se fizeram esperar. Jovens desmotivados motivaram-se, empreenderam freirianas leituras do mundo, o rendimento acadêmico melhorou, a comunidade estreitou laços com a escola, a recuperação do córrego começou.
O fenômeno gerou curiosidade. E o secretário de Educação quis saber a origem do inusitado projeto. Apercebeu-se de que, a par dos benefícios, era menor o custo. Membros da comunidade que acompanhavam o projeto dessa escola faziam-no gratuitamente.
No primeiro encontro com a secretaria, um dos educadores fez uma crítica construtiva e fundamentada ao modo como a formação vinha sendo realizada, por induzir os professores à reprodução de um obsoleto modelo de escola. As técnicas da secretaria responsáveis pelo setor da formação foram fazer “queixinha” ao seu chefe. O chefe, por sua vez, queixou-se ao secretário. E o senhor secretário mandou suspender o projeto.
Cansei-me de assistir à destruição de projetos por via de caprichos de governantes, da incompetência de funcionários, da sanha persecutória de burocratas. A falta de conexão com as realidades de comunidades não prejudica apenas o desenvolvimento cognitivo dos jovens – afeta negativamente o exercício da cidadania e sedimenta a submissão a um modelo excludente de sociedade.
Houve quem tentasse dar sentido à escola sem sentido. No tempo dos mestres Anísio, Agostinho, Lauro, Darcy, Freire, o Brasil parecia encaminhado para a melhoria da qualidade da sua educação. Perdemo-nos por descaminhos. Freire foi traído. E o conservadorismo pedagógico alia-se a um poder destituído de saber. As medidas de política pública continuam assentes na crença de ser possível melhorar aprendizagens sem que se processe a reconfiguração das práticas escolares, sem que surjam novas construções sociais de aprendizagem. Ou em equívocos como o de crer na despoluição de um córrego sem que os herdeiros de Freire devolvam as escolas às comunidades, de onde a modernidade as exilou.
Durante o período negro dos governos militares, o Rubem – que neste fatídico julho nos deixou órfãos – e outros brilhantes pensadores exilaram-se, e muitos projetos pereceram. O Rubem conduziu-me à descoberta de Anísio, que defendia a necessidade de mudar a escola, para que esta se tornasse um instrumento de mudança social. Levou-me ao encontro da Nise, do Florestan, da Nilde, do Lauro e de um íntimo Freire, sobre cuja integração na ortodoxa universidade o Rubem escreveu um “não parecer”...
A morte do mestre Rubem significará um novo exílio? Fico perplexo pela morte da memória do Anísio e por ver Freire sequestrado nos arquivos de teses das universidades, quando sua obra deveria inspirar o labor dos educadores e das escolas brasileiras. Que país é este, que mantém no exílio os seus maiores educadores?

PROFLETRAS TROUXE TEXTO MARAVILHOSO DE GABRIEL PERISSÉ



TEXTO DA PROVA DO MESTRADO
Para que serve a literatura?
Gabriel Perissé

A arte em geral e a literatura em particular não servem para nada? São atividades cuja grandeza reside nessa sublime “inutilidade”? A fruição de uma pintura, de um poema, de uma obra de arte é apenas isso: fruição?

No entanto, o prazer que sentimos na leitura de um conto, de um romance, de uma crônica é um prazer interessante e interessado. O prazer estético que a literatura proporciona-nos torna mais atentos às dores e aos odores da vida. Kafka dizia que um livro deve ser como “martelo que rompa a espessa camada de gelo” sob a qual nos escondemos. Afinal, para que serve a literatura? Para que escrever um texto, brincar com as palavras, conceber imagens, metáforas? Para que criar diálogos entre seres inventados, descrever mundos paralelos, fazer jorrar e enxugar lágrimas invisíveis?
O professor francês Antoine Compagnon tem uma resposta simples e impactante: “quando começamos a ler uma narrativa ou um poema corremos o risco de nos tornar diferentes do que éramos antes dessa leitura”. A literatura nos transforma. Leituras educadoras são aquelas que nos transformam, não só em leitores melhores, mas em pessoas mais atentas ao próprio ato de viver. Essa transformação se opera, por exemplo, na maneira de ver o mundo. Aprendemos a ver o que não víamos antes. Como nos fazem entender estes versos do poeta mineiro Murilo Mendes:

As mãos veem, os olhos ouvem, o cérebro se move. A luz desce das origens através dos tempos E caminha desde já Na frente dos meus sucessores
(“Somos todos poetas”)

É como se nossa percepção ganhasse força. Nossa sensibilidade aumenta. O tato, a visão e a audição se deslocam. O cérebro, preso aos lugares comuns, começa a se mover para todos os lados. Experimentamos a lucidez. Enxergamos o passado e o
futuro mais nitidamente.

Tornamo-nos, assim, pessoas mais críticas, menos manipuláveis. Já não nos seduzem certas programações, certos discursos, certas certezas. Até mesmo certas obras literárias se mostram insuficientes quando outras leituras já nos ensinaram a escolher e a ler melhor. A ler melhor as linhas e as entrelinhas, a forma e o fundo, o óbvio e o interpretável.

Não precisamos mistificar a leitura como se o toque mágico da palavra literária operasse milagres! Mas é um fato constatável que ler mais e melhor nos ajuda a vencer algumas submissões. Lendo com frequência, tendemos a exigir, de nós mesmos e de nossos interlocutores, uma clareza maior ao falar, mais sutileza ao pensar, um pouco mais de originalidade ao viver.
Do que fala a literatura, afinal de contas? Ainda que se refira a outros planetas, a outras sociedades, a outras terras, a outros seres, é sempre de mim que a literatura fala. De mim e de você. É sempre de nossas esperanças e desesperos que ela fala. É da nossa humanização e da nossa desumanização que ela fala. Lendo intensamente, sentimo-nos intensamente visados.
Reforçamos nossa autoconsciência. E daí brota a vontade de resistir.
A “desistite” é uma doença da alma que nos faz abrir mão da responsabilidade de viver. Uma existência sem sentido nos leva à desistência. Desistimos de encontrar nos meandros dos significados comuns, que dormem durante décadas no dicionário, um sentido especial para prosseguir no jogo da vida, na leitura da vida.
Desistir é também desistir de pensar. A leitura educadora, em contrapartida, convida à
resistência, ao uso da inteligência, ao desejo da experiência, ao sentido da urgência. Um personagem complicado denuncia minhas complicações. Um verso cheio de ambiguidades me interroga. Vou buscar meu tempo perdido. Vou respirar meu sopro de vida. Vou contar meus cem anos de solidão.

Num tempo em que a atividade dos professores parece ter sido substituída pela informação abundante e pelo entretenimento onipresente, a literatura pode vir em nosso auxílio. Porque, nela, é possível encontrar caminhos para a formação de si mesmo e para o reencontro com nossos semelhantes que são, em última análise nossos dessemelhantes.

Resistir tem a ver com o reconhecimento de quem nós somos. O nosso autorreconhecimento. É de justiça (e isso ninguém discute) que os outros reconheçam o nosso valor. Mas se não formos nós os primeiros a reconhece-lo, nada feito. Nós valemos, em boa medida, aquilo que lemos.
Nossas leituras fazem parte de nossa identidade. Somos o que lemos e o modo como lemos. Gostar de ficção nos aproxima da realidade.

O músico Jorge Mautner costuma dizer que existem dois tipos de imbecis: “os imbecis que não leem, e os imbecis que leem”. A diferença é a seguinte: os que leem conhecem a extensão da imbecilidade própria e alheia, ao passo que os que não leem ignoram até mesmo a sua lamentável situação. Os que fogem da leitura mal desconfiam (de)que andam perdidos em todos os espaços.

As perguntas retornam: para que serve mesmo a literatura? Será uma disciplina entre as outras? Ou uma coisa belamente inútil?

Revista Educação, julho de 2014. [Adaptado]
 Ilustração de Marina Faria para o livro
Quando Blufis ficou em silêncio, de Lorena Nobel e Gustavo Kurlat (Companhia das Letrinhas,  2014)