domingo, 13 de setembro de 2009

Ponto de vista: Lya Luft

Vai piorar


"Tolerância zero com tudo o que nos desmoraliza e humilha, perseguição implacável ao cinismo, mudança total nas futuras eleições, faxina no Congresso"

Escritores devem escrever, palestrantes devem falar. Qualquer pessoa tem a obrigação de pensar e o direito de se expressar. Claro que isso não acontece num país de analfabetos, onde não se tem interesse em que o povo pense: um povo informado escolheria outros líderes, não ficaria calado quando pisoteiam sua honra, expulsaria de seus cargos os pseudolíderes e tentaria recompor as instituições aviltadas. Mas nós não fazemos nada disso: parecemos analfabetos e afásicos, uma manada de bobos assistindo às loucuras que se cometem contra nós, contra cada um de nós.



E eu, que tenho as duas atividades, escrever e eventualmente falar, que desde criança fui ensinada que cabeça não foi feita só para separar orelhas, mas para pensar, questionar – e também para ser feliz –, neste momento, não sei o que pensar. Muito menos o que responder quando me perguntam interminavelmente o que estou achando, como estou me sentindo. Estou virando pessimista. Não em minha vida pessoal, mas em relação a este país. Ou melhor: a seus governantes, autoridades, homens públicos, políticos. Mal consigo acreditar no que se está passando. A cada dia um espanto, a cada dia uma decepção, a cada dia um desânimo e uma indignação.

Este já foi o país dos trouxas, que pagam impostos altíssimos e quase nada recebem em troca; o país dos bobos, que não distinguem um homem honrado dum patife, uma ação pelo bem geral de uma manobra para encher o bolso ou galgar mais um degrauzinho no poder a qualquer custo; o país dos mistérios, onde quem é responsável absoluto não sabe de nada, ou finge enxergar outra realidade, não a nossa. Hoje, estamos ameaçados de ser o país dos sem-vergonha. A falta de pudor e o cinismo imperam e não há, exceto talvez o Supremo Tribunal, lugar totalmente confiável.

Entre os políticos, com cargos ou não, impera um corporativismo repulsivo – ou estaremos todos de rabinho preso? Nós, povo que se deixa enganar tão facilmente, que pouco se informa e questiona, vamos nos tornando da mesma laia? Seremos também, concreta ou moralmente, vendidos? Quando eu era menina de colégio, às vezes os rapazes se insultavam gritando "vendido!", não me lembro bem por quê. Deviam ser questões esportivas. Um ponto não marcado, um gol roubado. Era grave insulto. Hoje, parece que ninguém mais liga para insultos, leves ou pesados – nada pega, tudo é água em pena de pato, escorre e acabou-se. Um povo teflon. Vemos líderes vendendo-se em troca de comodidade, cargo, poder, dinheiro, impunidade, preservação de algum sórdido segredo, ou simplesmente a covardia protegida. Quem nos deve representar sumiu no ralo. Quem nos deve orientar se transformou em mamulengo. Quem nos deve servir de modelo chafurda na lama. E nós, povo brasileiro, nos arrastamos na tristeza. Reagimos? Como reagimos? Pintamos a cara e saímos às ruas aos milhares, aos milhões, jogamos ovos podres, paramos o país, pacificamente que seja, tentamos mudar o giro da máquina apodrecida? Aqui e ali um tímido protesto, nada mais.

De algum lugar surgiram os senadores que votam às escondidas porque não têm honra suficiente para enfrentar quem os elegeu; os deputados pouco confiáveis, alguns duvidosos ministros, de onde surgiram? De nós. Nós os colocamos lá, nós votamos, nós permitimos que lá estejam e continuem – nós, através das mãos dos ditos representantes, instituímos a vergonha nacional que em muitas décadas será lembrada como um tempo de opróbrio.

E não argumentem que a economia está ótima: ainda que esteja, digo que me interessa muito menos a economia do que a honra e a confiança, poder ser brasileiro de cabeça erguida. Existe o Bolsa Família, a miséria está um pouco menos miserável? Pode ser. Mas os hospitais continuam pobres e podres, as escolas e universidades carentes, as estradas intransitáveis, a autoridade confusa e as instituições esfaceladas, os horizontes reduzidos. O Senado terminou de ruir? Querem até acabar com ele? Pode parecer neste momento que ele não faz muita falta, mas sua ausência seria um passo para o Executivo ditatorial, a falência total da ordem e a perda de um precário equilíbrio.

Com pressentimentos nada bons, faço – embora sem grande esperança – uma conclamação: tolerância zero com tudo o que nos desmoraliza e humilha, perseguição implacável ao cinismo, mudança total nas futuras eleições, faxina no Congresso, Senado e câmaras, renovação positiva no país. Conscientização urgente, pois, acreditem, do jeito que vai a coisa tende a piorar.

Lya Luft é escritora

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Golpe da monografia vira produto de exportação


O Jornal Hoje mostrou na edição do dia 10/09 o comércio ilegal de monografias. São universitários comprando o trabalho de conclusão de curso, um crime de violação de direito autoral cometido tanto por quem vende, como por quem compra.

Uma das pessoas que fazem as monografias só tem o ensino médio. E os professores adotam técnicas pra descobrir se o trabalho entregue pelo universitário foi mesmo feito por ele, ou não.

Um advogado recorreu à indústria da monografia para comprar o trabalho da pós-graduação. "Eu tava muito sobrecarregado de trabalho, não tava em condições de pesquisar e fazer a monografia como deveria ser feita", conta.

Nossa produtora foi até uma das empresas que vendem monografias. A fraudadora conta que o golpe está sendo exportado. Até universidades estrangeiras estão sendo enganadas.

“Eu já acompanho um doutorado há quase quatro anos, que eu acompanho uma menina. Ela faz em Barcelona”, revela.

JH: Mas é em português ou espanhol?

“Em português, depois é que faz a tradução”, explica.

E a mulher que vende trabalhos para os universitários confessa: só tem o ensino médio.

“Eu só tenho segundo grau, nunca entrei na faculdade, e eu basta eu olhar um trabalho que eu descubro que ele é plágio. Precisa ser professor não”, declara.

Os professores passaram a agir como investigadores. Orientador de 15 monografias por semestre, Isaac usa sites de busca e um programa específico para detectar textos copiados principalmente da internet.

“Nós analisamos a qualidade do trabalho que é analisado pelo aluno, comparamos com o histórico escolar e se houver uma discrepância muito grande, isso acende uma luz vermelha para que nós procuremos na internet algum indício de que ele está usando de um meio ilícito, fraudulento para concluir seu curso”, diz Isaac Luna, professor.

Se a fraude ou plágio não foram descobertos durante a elaboração do trabalho, a prova de fogo é na hora da apresentação da monografia diante da banca. O orientador e dois professores têm que estar preparados para tentar descobrir se o trabalho foi copiado, comprado ou se realmente o aluno fez a monografia que vai lhe dar o diploma.

A banca é rigorosa, faz perguntas estratégicas e com uma câmera grava as apresentações.

“Quando a gente não consegue detectar através de meios da internet, a gente sabatina o aluno, a banca sabatina o aluno não só quanto às referências da bibliografia que ele utilizou, mas também com o próprio conteúdo pontual do seu trabalho”, diz Caroline Fernandes, professora orientadora de monografias.

“O aluno que a banca detecta o plágio... Vai ser anunciada a reprovação dele e ele vai ter que repetir o semestre, a disciplina de metodologia, a disciplina de conclusão do curso”, diz Anabel Pessoa, professora.

FONTE: JORNAL HOJE

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A NAÇÃO DOS ENLEVADOS



Faz de conta que faz, faz de conta que muda. Essa tem sido a peleja. Não advirto que sejamos auspiciosos em demasia, é tanta hipocrisia e as pessoas andam enlouquecidas. Cadê a segurança? Cadê? Em que mão se apoiar, se não na poderosa mão de Deus. Cadê a paz dos lares? Cadê as famílias equilibradas? O respeito aos mais velhos? Cadê as autoridades? Os homens aguerridos? Cadê os planos e as parcerias?
A saúde vai mal, a educação nem se fala, pior que UTI em decadência. Alguns cursos superiores reprovados em números alarmantes. Drama! É drama sim! É um verdadeiro drama nacional. Cadê a força da base? Cadê a prática? Chega de teorias, chega de reciclagens. Não somos lixo!
Tantas falácias, palavras eloquentemente ditas com veemência. E, não passam disso, não passam de muito aleive. Nesse meio tempo, preparemos os ouvidos para o ano que vem, e comecemos a refletir, treinar a mente e a mão. Que limpemos as nossas lentes, que não deixemos embaçar nossos olhos. Os nossos filhos dependem das nossas boas escolhas. Nossa velhice também. Talvez não tenhamos muitas opções, mesmo assim, ainda creio, há gente boa querendo fazer a querela. Não é justo generalizar! Não é! Só precisamos abrir os olhos além da conta, precisamos clamar por paz, pela volta dos valores morais, precisamos fazer nossa parte,e, se não pudermos transformar esse torrão, que transformemos a nós mesmos, a nossa vida espiritual, a nossa fé. É isso que nos resta, para não terminarmos atribulados, acobardados, trancados em um mundo feio, descolorido e rude, de homens egoístas e perversos que atropelam os outros sem acanhamento. Não dá para disfarçar minha repulsa. Quando adolescente, com minhas inquietações, sonhei com um país melhor, cantando o hino com amor no peito, entoando os versos com veracidade, pisando o solo firme e respeitando a marcha. No meu sonho tudo era diferente. Na época, não havia tantos diplomas, mas as pessoas eram sábias e humanas, não havia uma universidades em cada esquina, mas o ensino era acatado. Médicos não brincavam com a vida, erravam menos, professores ensinavam com devotamento a cartilha do abc e a tabuada, acompanhados da palmatória que era o corretivo na hora do erro. E assim, aprendíamos mais, valorizávamos nossos mestres, éramos mais amigos, adorávamos nossos pais e em meio as dificuldades fomos mais felizes. Viva Dona ILdete, Dona Mirinha, minha mãe(im memória) e tantos outros educadores que fazem a nossa história. Sonhava que seriamos “livres” menos injustos, mais dispostos a harmonia e cientificamente um país mais evoluído. Meu sonho se perdeu na modernidade exacerbada do tempo. Hoje, ponho o pé no chão e ao abrir e fechar os olhos o que vejo são os faz de conta. Faz de conta que faz, faz de conta que muda. Assim sendo, mais um sete se passa...

Josélia Coringa

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

CRÔNICA, CRIME E CASTIGO - DE LYA LUFT (Colunista da Revista Veja)


"Estamos levando na brincadeira a questão do erro e do castigo, ou do crime e da punição. Sem limites em casa e sem punição de crimes fora dela, nada vai melhorar"

Tomo emprestado o título do romance do russo Dostoiévski, para comentar a multiplicação dos crimes nesta cultura torta, desde os pequenos "crimes" cotidianos –falta de respeito entre pais e filhos, maus-tratos a empregados, comportamento impensável de políticos e líderes, descuido com nossa saúde, segurança, educação – até os verdadeiros crimes: roubos, assaltos, assassinatos, tão incrivelmente banalizados nesta sociedade enferma. A crise de autoridade começa em casa, quando temos medo de dar ordens e limites ou mesmo castigos aos filhos, iludidos por uma série de psicologismos falsos que pululam como receitas de revista ou programa matinal de televisão e que também invadiram parte das escolas. Crianças e adolescentes saudáveis são tratados a mamadeira e cachorro-quente por pais desorientados e receosos de exercer qualquer comando. Jovens infratores são tratados como imbecis, embora espertos, e como inocentes, mesmo que perversos estupradores, frios assassinos, traficantes e ladrões comuns. São encaminhados para os chamados centros de ressocialização, onde nada aprendem de bom, mas muito de ruim, e logo voltam às ruas para continuar seus crimes.

Estamos levando na brincadeira a questão do erro e do castigo, ou do crime e da punição. A banalização da má-educação em casa e na escola, e do crime fora delas, é espantosa e tem consequências dramáticas que hoje não conseguimos mais avaliar. Sem limites em casa e sem punição de crimes fora dela, nada vai melhorar. Antes de mais nada, é dever mudar as leis – e não é possível que não se possa mudar uma lei, duas leis, muitas leis. Hoje, logo, agora! O ensino nas últimas décadas foi piorando, em parte pelo desinteresse dos governos e pelo péssimo incentivo aos professores, que ganham menos do que uma empregada doméstica, em parte como resultado de "diretrizes de ensino" que tornaram tudo confuso, experimental, com alunos servindo de cobaias, professores lotados de teorias (que também não funcionam). Além disso, aqui e ali grupos de ditos mestres passaram a se interessar mais por politicagem e ideologia do que pelo bem dos alunos e da própria classe. Não admira que em alguns lugares o respeito tenha sumido, os alunos considerem com desdém ou indignação a figura do antigo mestre e ainda por cima vivam, em muitas famílias, a dor da falta de pais: em lugar deles, como disse um jovem psicólogo, eles têm em casa um gatão e uma gatinha. Dispensam-se comentários.

Autoridade, onde existe, é considerada atrasada, antiquada e chata. Se nas famílias e escolas isso é um problema, na sociedade, com nossas leis falhas, sem rigor nem coerência, isso se torna uma tragédia. Não me falem em policiais corruptos, pois a maioria imensa deles é honrada, ganha vergonhosamente pouco, arrisca e perde a vida, e pouco ligamos para isso. Eu penso em leis ruins e em prisões lotadas de gente em condições animalescas. Nesta nossa cultura do absurdo, crimes pequenos levam seus autores a passar anos num desses lixões de gente chamados cadeias (muitas vezes sem sequer ter havido ainda julgamento e condenação), enquanto bandidos perigosos entram por uma porta de cadeia e saem pela outra, para voltar a cometer seus crimes, ou gozam na cadeia de um conforto que nem avaliamos.

Precisamos de punições justas, autoridade vigilante, uma reforma geral das leis para impedir perversidade ou leniência, jovens criminosos julgados como criminosos, não como crianças malcriadas. Ensino, educação e justiça tornaram-se tão ruins, tudo isso agravado pelo delírio das drogas fomentado por traficantes ou por irresponsáveis que as usam como diversão ou alívio momentâneo, que passamos a aceitar tudo como normal: "É assim mesmo". Muito crime, pouco castigo, castigo excessivo ou brando demais, leis antiquadas ou insuficientes, e chegamos aonde chegamos: os cidadãos reféns dentro de casa ou ratos assustados nas ruas, a bandidagem no controle; pais com medo dos filhos, professores insultados pela meninada sem educação. Seria de rir, se não fosse de chorar.

AS CRÔNICAS DE LYA LUFT DISPENSAM QUALQUER COMENTÁRIO.ESSE É UM ESTILO LITERÁRIO QUE GOSTO MUITO E LEIO COM FREQUÊNCIA.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Um bom plano começa pelo diagnóstico

Nos próximos quatro meses os gestores estaduais e municipais terão que revisar os planos de carreira do magistério.

A primeira reflexão que esta tarefa enseja é a necessidade de se fazer um bom diagnóstico antes de começar a redigir a nova proposta de plano.

Uma dificuldade que os dirigentes municipais de educação encontrarão é a atual falta de controle dos recursos educacionais pelos titulares da pasta. Apesar da Lei de Diretrizes e Bases prevê no seu artigo 69 o controle pelo ministro, secretário estadual e municipal dos recursos vinculados à educação, infelizmente esta parte da LDB foi solenemente desconsiderada.
Artigo 69. ...

§ 5º O repasse dos valores referidos neste artigo do caixa da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios ocorrerá imediatamente ao órgão responsável pela educação, observados os seguintes prazos:
I - recursos arrecadados do primeiro ao décimo dia de cada mês, até o vigésimo dia;
II - recursos arrecadados do décimo primeiro ao vigésimo dia de cada mês, até o trigésimo dia;
III - recursos arrecadados do vigésimo primeiro dia ao final de cada mês, até o décimo dia do mês subseqüente.
§ 6º O atraso da liberação sujeitará os recursos a correção monetária e à responsabilização civil e criminal das autoridades competentes.

Na realidade nua e crua, muitos dirigentes educacionais nem ordenadores de despesa são. Ou seja, temos secretários que não sabem ao certo como são gastos os recursos educacionais.

Para elaborar um bom plano de carreira vai ser necessário conhecer o quanto cada estado ou município possuem disponíveis para aplicar em educação, seja no orçamento atual, seja a previsão de arrecadação para os próximos anos.

Além disso, em relação aos recursos recebidos via Fundeb, vai ser necessário verificar o comportamento desta receita também nos próximos anos.

Fazer um prognóstico do potencial financeiro municipal ou estadual é uma pré-condição pra elaborar o plano de carreira.

Por exemplo, um município precisa verificar o seu grau de dependência dos recursos transferidos pela União ou pelo Estado. Quanto menor for a arrecadação própria, mais dependente de fatores alheios ao seu controle estará a municipalidade.

Em relação aos recursos do Fundeb também alguns fatores fogem da governabilidade municipal. A definição dos fatores de diferenciação que remuneram cada etapa e modalidade é um exemplo. Mas o município pode se programar para vincular de alguma forma o crescimento das matrículas com os possíveis impactos do novo plano.

São algumas breves observações, mas o importante é tomar a decisão política de iniciar a elaboração dos planos imediatamente.

Postado por Luiz Araújo